segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 

O BATISMO DE JAN CALVINO

Um dos grandes momentos na vida da família cristã é o dia do batizado. Principalmente naquelas crenças em que o momento acontece quando ainda o batizando é neném. Os pais, padrinho, madrinha, tios, tias e outros convidados fecham um circuito em torno do pastor/padre que vai executar, quer dizer, realizar o batizado. É um momento solene quando toda a vaidade se apaga; quando todo covarde faz força, e todo o valente se… errei. Nada disso! Mas que é um momento solene, ah, isto é!

O que vou contar não é fábula. Isto aconteceu. Vou mudar o nome para evitar desgastes jurídicos. Muito embora eu saiba que se citasse o nome, não haveria receios de brigas envolvendo juízes, promotores, advogados oficiais de justiça, etc.

Na vida do Jan Calvino não foi por menos.

Jan Calvino nasceu em uma abençoada quarta feira. Nasceu bem no meio de uma família rigorosissimamente evangélica. Daquelas de não perder culto, mesmo com chuva, neve, granizo, tornados, enchentes e outras catástrofes menores. Sem contar com os estudos bíblicos às terças e sextas e ensaio do coro da comunidade às quartas e diversas outras atividades extracurriculares.

Por aí dá para imaginar a fertilidade de suas imaginações. E, naturalmente o ambiente de castidade absoluta no entremeio daquela família. Diga-se de passagem, totalmente absorvida nos preceitos, conselhos e admoestações do Pastor Davi Régis e mais três outros que o auxiliavam nas tarefas de manutenção da comunidade que deveria orçar em torno de umas duzentas almas boas, caridosas e fiéis.

Com cerca de uns vinte dias de vida, Jan Calvino foi preparado para o acontecimento que o livraria de todo o mal do mundo, Amém. Inclusive do fastidioso pecado original. Culpa que carregamos porque Adão e Eva, milênios e mais milênios atrás, deram ouvidos a uma cobra faladeira.

Mãe e pai do menino haviam resolvido entre eles que o nome dele seria Rui Renato. Uma homenagem gratificante que seria lembrada por muito tempo a um dos nossos patronos jurídicos.

Acontece que em cabeças mais ou menos desocupadas há outras oficinas, como diz o ditado popular. E o Pastor Davi Régis, junto com seus auxiliares, convocaram os pais do menino e deram a “sugestão feliz” de lhe dar o infortunado nome de Jan Calvino. E explicaram ao casal que seria uma homenagem a dois grandes homens da religião. Que haviam se revoltado contra o domínio da igreja do demônio (a católica). Que Jan vinha de Jan Huss, um teólogo iugoslavo que morrera na fogueira por suas convicções cristãs, plenas de amor e cristandade. E Calvino seria um francês que criou as emblemáticas doutrinas que lhe tinham sido trazidas pelo Espírito Santo e que se espalharam pelo mundo.

O casal, total e fielmente crente nas palavras do mestre pastor das perdidas ovelhinhas, acatou a ideia pastoral. E resolveram aceitar a sugestão. Ou seja: condenaram o filho, pelo resto de sua vida a carregar estes dois nomes. Mas ele, ainda sem o menor poder de decisão, teve de receber o fastidioso nome, como sentirá mais tarde, em sua juventude e depois quando adulto.

Tudo pronto, dezesseis horas e trinta minutos, todos a postos, batistério já com a água já benzida e com quantidade suficiente, os panos de linho já na mesinha ao lado da bacia, o pastor já com sua batina de festas, todos, pai, mãe, padrinho, madrinha e convidados, já devidamente empacotados em suas vestes domingueiras, e o menino, já embalado com um vestidinho branco com coelhinhos que a avó tinha feito para a cerimônia, se inicia o ritual.

A madrinha segura o garotinho com todo o cuidado, colocando-o em posição horizontal, cabeça revoando sobre a água do batistério, pastor realizando uma breve homília, uma lágrima pulando dos olhos azuis da mãe, o pai, nervoso, sem saber o que fazer com as mãos.

E começa a realização do batismo. Mas bastou o pastor levar a mão até a água e despejá-la na cabeça de Jan Calvino, com o sério e compenetrado: “Jan Calvino, eu te batizo em nome do Pai…”

Exatamente neste momento Jan Calvino explode em uma sonora e alta flatulência (peido, mesmo!) que faz com que todos, pastor inclusive, caiam na gargalhada, sem condições de pararem.

Passado o momento cristãmente crepuscular das risadas sem fim que reboaram por toda a igreja, o Pastor Davi Régis retoma a solenidade batismal do pobre Jan Calvino.

“Jan Calvino. Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”.

Mas aí surgiu uma dúvida nas cabeças de todos. Porque Jan Calvino recebera dois batismos em nome do Pai e somente um de cada um dos membros da tal da Trindade Excelsa. E arguiram o pastor a respeito, colocando em dúvida se teria validade tal situação frente a Deus.

O Pastor Davi Régis, coçou a já principiante calva, limpou a garganta, piscou pelo menos umas dez vezes as pálpebras e jogou no ar uma das maiores heresias já proferidas em um templo desde a fundação do cristianismo:

NÃO HÁ PROBLEMA. ASSIM JAN CALVINO TERÁ A PROTEÇÃO DUPLA DE NOSSO PAI QUE ESTÁ NOS CÉUS VENDO O QUE ACONTECEU. E SEU FILHO E O ESPÍRITO SANTO COMPREENDERÃO. AMÉM”.

Todos os presentes disseram: “AMÉM. DEUS SEJA LOUVADO”. E correram para uma caixinha estrategicamente colocada, onde colocaram seus óbolos caritativos